24 Nov

A separação

Quando eu era criança meu maior medo era que meus pais se separassem. Eu cresci e isso não aconteceu. Então passei a achar que jamais aconteceria. Na minha cabeça o “tempo de perigo” tinha ido. Pois 28 anos tinham se passado, os quatro filhos estavam crescidos… A gente só pensa que isso acontece quando é criança ou adolescente. Você não imagina nem teme mais que seus pais se separando quando você já é adulta.

Mas acontece. E aconteceu com os meus.

Meus pais sempre foram para mim a referência do amor. Eu queria um dia viver um amor como o deles. Que sobreviveu a quatro filhos, a tempos difíceis de dinheiro, a doença, a acidente de carro.

Eu nunca realmente acreditei que fosse ouvir meu pai me falando que ia se separar da minha mãe. Parecia algo de outro mundo, sabe? Parecia irreal. Eu já tinha visto tanto meus pais discutindo, eles bravos um com o outro, mas tudo sempre melhorava depois. Não poderia dessa vez ser assim também? Mas não foi… por mais que eu desejasse o contrário, não foi.

No começo eu achei que por eu não ser mais criança eu lidaria com isso bem. Estava enganada. Meu mundo desmoronou. Não consegui estudar direito, não consegui me relacionar direito, não consegui viver direito. Senti medo, culpa, arrependimentos. Seus pais sempre dizem que a culpa não é sua, mas você lá no fundo pensa como teria sido se você não tivesse aprontado isso ou aquilo com seus pais. Será que o que você fez não cansou eles? Será que realmente você não contribuiu para o desgaste do relacionamento dos seus pais? Isso tirava o meu sono. Porque eu tenho mania de me culpar por tudo que acontece ao meu redor. Então me culpei por isso também.

Eu não sabia como agir. Ainda mais porque foi uma separação que aconteceu de forma bem dolorosa. Eu tentava me apegar no pensamento que queria que meus pais fossem felizes, seja qual fosse a escolha deles. Mas às vezes isso não impedia de uma imensa tristeza me arrebatar e me incapacitar por uns dias. Falhei em vários projetos da faculdade e pessoais por conta disso.

É difícil ver que as duas pessoas que você mais ama no mundo, que foram a sua referência de mundo desde quando você nasceu não se entendem mais. Não conseguem mais conversar. Parecem que falam línguas diferentes, de mundos diferentes. Às vezes dá vontade de gritar: “Vocês só podem estar malucos, por favor, né?!? E todas as manhãs de sorrisos e carinho entre vocês? E todas as lembranças boas? E as viagens, e as danças? E quando ficávamos os seis em cima da mesma cama e parecia que nada, nunca ia nos atingir e que aquilo iria durar para sempre? O que aconteceu com tudo, com a vida juntos?”. Mas acho que ninguém teria respostas para isso… e que nem mesmo os filhos que são os mais próximos de um casal conseguem realmente compreender o relacionamento entre eles. Pois é uma coisa só entre eles.

Acontece aquele rompimento na sua imagem do que é família. Antes sua casa era a do seu pai e da sua mãe. E agora, onde ela é? Tem aquela sensação de que você perdeu sua família. Mas essa não é a verdade. E quando a dor diminui um pouco você percebe que sua família ainda existe, que ele sempre vai existir, mesmo com as pessoas separadas, seu pai vai ser sempre seu pai, sua mãe vai ser sempre sua mãe. E os seus irmãos vão ser seus irmãos. Mesmo que a gente nunca mais se reúna junto em um Natal ou mesmo que não viajemos mais nas férias, ainda somos nós. Eu ainda os amo igual. E mais do que qualquer coisa, quero que sejam felizes.

Pai e mãe erram. Mas quem não erra, meu deus? Quem tem todas as respostas, por acaso? Quem nunca achou que algo duraria pra sempre, mas o pra sempre foi longo demais e levou com ele vários dos seus sonhos e promessas? A culpa não é de ninguém quando isso acontece. Essas coisas acontecem. E a vida segue. Ela precisa seguir.

Ainda não sei lidar com a separação dos meus pais. E tento sempre ter eles dentro de mim como “pessoas que precisam e merecem ser felizes”. E não simplesmente como “meus pais que precisam estar juntos”. Acho que isso ajuda, na maioria das vezes.

Estudante de Ciência da Computação que adora ler e fotografar. Acredita que todos os dias poderiam ser dias chuvosos. Queria que o Stephen King fosse seu tio para poder ir visitá-lo e tomar um café com ele.

4 thoughts on “A separação

  1. É amiga… Isso tudo aconteceu comigo e eu era muito nova para entender, mas ainda assim me deixou marcas profundas. A verdade é que os sentimentos mudam, a vida é dinâmica e feita de escolhas. Tenho certeza que seus pais lutaram muito para permanecerem juntos, acontece que quando uma pessoa desiste ou não quer mais fica complicado manter… Pensa que o amor ainda existe.. Veja só meus pais, mesmo depois de tanta mágoa, traição hoje eles são amigos… É um processo. Time takes care of the wound.

  2. Ajuda também não ficar tentando assumir a culpa de tudo viu ;)
    Muito bom seu texto, espero mesmo que você consiga seguir adiante com isso, sem deixar que esses acontecimentos te impeçam de ser quem você é, ou quem você quer ser.
    Nem deixe isso mudar o que você pensa dos seus pais =)

    Bjs.

  3. Poxa, acho que é uma situação difícil. Mas com o tempo essa sensação ruim passa, tenho certeza de que todos vocês vão conseguir ficar bem. Mesmo separados, eles ainda podem ser amigos e nem vão te abandonar, não é mesmo?
    O tempo vai te ajudar… e não se culpe por nada. Espero que tudo dê certo pra sua família :)

  4. Nossa, Nanda… Eu era muito pequena quando os meus decidiram se separar. Eu era muito nova para entender tudo e aceitei bem a ideia de ter “duas casas” (hehe). E acho que as pessoas se enganam quando dizem que quando os filhos são mais velhos é mais fácil,pq quando você é criança ainda não consegue entender direito o que está acontecendo… Mas acho que você ter escrito esse texto mostra que você está no caminho certo para aceitar essa situação, como já disseram é um processo e o tempo vai te ajudar! ;)

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